Uma crítica construtiva ao design sustentável

Sustentabilidade virou commodity.

O  discurso do ecologicamente correto se popularizou tanto que hoje é proferido para os mais diversos interesses: Para o designer, é um diferencial profissional e um símbolo de que está antenado com o mercado. Para as empresas, representa valor agregado aos seus produtos e serviços, explorando o sentimento de responsabilidade de seus consumidores. E para o cidadão?

Não pretendo criticar a conscientização ecológica e concordo que toda a ajuda é válida independente de suas motivações. Mas acredito que sem qualquer autocrítica mesmo uma excelente ideia banaliza e perde sua força, e que são necessários critérios mais sólidos e coerentes para se definir um projeto como sustentável.

Portanto, sejamos francos.

1. O planeta não está em risco.

A humanidade sim. Com poluição, plástico, enchentes e tsunamis o planeta vai continuar por aqui por mais 4 bilhões de anos. Provavelmente com outros animais e plantas, mas continuará planeta, nem pior ou melhor, apenas diferente. Nós não.

As mudanças climáticas que vivemos são insignificantes do ponto de vista geológico, alarmantes da perspectiva humana.  Já enfrentamos duas inóspitas eras do gelo: da última vez, 11 mil anos atrás, apenas 2000 indivíduos sobreviveram.

Ou seja, o mundo vai continuar por aí, mudemos nossas atitudes ou não. Mas provavelmente será um lugar insuportável ou impossível de nos manter.

Então, como resolver o problema?

2. Nem sempre existem soluções óbvias.

50 anos atrás o mundo vivia um grave problema ecológico de resfriamento global. Nesta época, o principal combustível era o poluente carvão, responsável por uma infinidade de carbono lançado na atmosfera para alimentar a indústria bélica das duas guerras mundiais. Nunca se poluiu tanto. Os cientistas preocupados propunham maneiras de estimular o efeito estufa para evitar uma queda substancial na produção de alimentos que levaria a morte de milhões.

Voltando um pouco mais no tempo, chegamos ao designer (por que não?) Ford e sua invenção para resolver um dos principais problemas ecológios do início do século 20: o transporte a cavalo. Sua solução de transporte limpo e eficiente? O automóvel.

Imagine cidades populosas com centenas de milhares de cavalos defecando ao ar livre. Montanhas de esterco do tamanho de edifícios, moscas e insetos por toda a cidades. Imagine ruas cobertas de estrume até a altura dos tornozelos. O automóvel de Ford propunha uma solução limpa aos poluentes cavalos, e energeticamente eficiente frente aos obsoletos motores à carvão.

Se solução pode se tornar problema, então como fazer diferente?

3. Não basta fazer diferente: faça certo!

Muitos dos produtos ditos ecológicos causam verdadeiro impacto além de reafirmar o pensamento sustentável. Não adianta apenas evitar o uso de plástico e colar um selo verde na testa. É preciso prestar atenção a alguns detalhes importantes! Para isso, precisamos de modelos.

Abaixo reproduzo uma brilhante proposta elaborada pela professora e Design Thinker Denise Eler (disponível como diagrama em seu blog ):

Há necessidade de um produto físico?

  • Se sim, este produto é para um evento efêmero?
    • Se sim, o material pode ser biodegradável ou reaproveitável?
      • Se sim, ok!
      • Se não, você precisa repensar sua solução.
    • Se não, o material pode ser durável?
      • Se sim, ok!
      • Se não, você precisa repensar sua solução.
  • Se não, este produto virtual (ou serviço) demanda a criação de um artefato físico?
    • Se sim, este artefato pode ser alugado ou compartilhado?
      • Se sim, ok!
      • Se não, este material poderá ser reutilizado?
        • Se sim, ok!
        • Se não, você precisa repensar sua solução.
    • Se não, ok!

O modelo proposto por Denise Eler é uma sistematização pessoal inspirada no livro cradle to cradle de McDonough e Braungart, que sugere uma mimetização da natureza para o ciclo de vida de produtos, evitando a produção exagerada de lixo. Outra referência é o pensamento Design Durable, que sugere que a criação de produtos duráveis para atividades frequentes, evitando também a produção de dejetos.

Portanto, faço um convite. Vamos repensar nosso papel não apenas como profissionais, mas cidadãos. E projetar serviços e produtos para o futuro de nossa espécie.

Leia também:

  1. Cradle to Cradle – Remaking the way we make things
  2. Design Durable
  3. Seres humanos, a tecnologia e o futuro
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Meu nome é Marcello Cardoso, meu trabalho é criar bons produtos Saiba mais

Sócio e consultor na Latitude14

Atuamos desde 2006 como consultores especializados em planejamento, acompanhamento e execução de projetos digitais.

Somos 3 sócios experientes (cerca de 10 anos com web), especialistas em Design de Interação e lecionamos em algumas conceituadas pós-graduações de Belo Horizonte (UNA, PUC, UNI-BH).

Contamos ainda com uma rede de contatos exclusiva de especialistas em redes sociais, negócios, desenvolvimento e áreas afins.

Especialista em Design de Interação pela PUC-MG

Pós graduação focada na análise e avaliação de dispositivos interativos, prototipação e testes com usuário.